sexta-feira, 15 de julho de 2022

Reflexões não solicitadas - O lobo

 


Parte XV 

As suas águas me inundaram. De novo. E de novo. E de novo. Enquanto eu tentava caminhar para além do horizonte que se apresentava para mim. O seu calor me cercou aconchegante e me permiti mergulhar em suas águas profundas, para me afogar em ti. Agora alcanço a superfície, pesando em meus pulmões essa água suja e chumbosa. E então sou julgada por essa bússola me apontando os erros, pesando o meu coração em sua balança. Mas para onde a bússola aponta senão para o seu portador, enquanto se cobre de véus e enxerga a verdade distorcida de um falso absolutismo baseado em julgamentos superficiais da realidade que se cerca? Nada está em preto e branco e o tempo vem para nos arrancar convicções e nos tornar maleáveis dentro das nossas vivências traumáticas e desregradas.

E como estão essas águas agora? Talvez levemente agitadas enquanto o meu céu se cobre de nuvens negras. Vana salus semper dissolubilis. Me sinto caminhando em lama, aguardando ser devorada pelos lobos por me tornar uma presa fácil. Até onde a nossa história está submergida em suas águas, obscurecida por sua conveniência? O que veio à tona e o que continua em suas profundezas incapaz de ver a luz do dia? As suas águas vieram de encontro ao meu espaço, dividir a minha cama, aconchegar-se em meus braços, aproveitando-se da minha vulnerabilidade solitária, me cobrindo de elogios e carinhos, me tornando desejosa e febril. Agora já não sirvo mais ao seu bel prazer, então decido partir pois não sou mais bem vinda. E eu preciso caminhar entre a lama e procurar um outro lar que me acolha enquanto deixo para trás essa história repleta de desejos velados para encarar a tempestade que me cerca. Deveria abrir a caixa de Pandora? E se eu a abrisse, você seria o pendurado em um mundo em que os homens são lobos organizados em matilhas e as mulheres as castras detentoras de toda a sabedoria intuitiva e vilanizadas em seus desejos carais? Ou você seria apenas coroado por uma rainha de copas enquanto a minha cabeça é cortada, alimentada aos lobos?

Eu me encontrei novamente nessa encruzilhada e tentei fazer as minhas escolhas infrutíferas. Eu escolhi por várias vezes o sim. Mas você me bloqueou repleto de nãos. Eu escolhi o sim quando me aproximei de você e me senti cativada. Você veio com o não quando as minhas palavras te pesaram em cobranças. Eu escolhi o sim quando tentei te mostrar o fardo dos meus pensamentos frenéticos. Você veio com o não quando ignorou os meus suplícios de compreensão por acha-los exasperados. Eu escolhi o sim quando insisti em querer te ver. Você veio com o sim quando deixou nas entrelinhas que queria reviver o que tivemos em uma possível despedida. E escolheu o não quando me pediu para ficar no meu espaço, desinteressado. E só então entendi que já não havia mais lugar para mim no seu recintuoso abismo. E fui inundada por essa taciturna dor que me atormenta em noturnos desejos desesperançosos. Mas você apenas transpareceu o que te servia? Seria apenas eu jogada aos lobos nessa história, ou você revelou a sua verdadeira face quando precisou encarar as consequências de suas investidas ao recrear-se nos sentimentos alheios?

Você roubou o meu fôlego e agora me vejo pálida em face ao caminho que anunciou-se e tento deixar para trás a nossa história. Preciso atravessar essas pedras escorregadias sem saber se retorno para a minha estrada e sigo em frente deixando essa paisagem agora sombria e nebulosa cuidadosamente, ou escorrego e me quebro imobilizada neste espaço solitário, precisando me dar um tempo de cura.

Não há nada de belo em nossa história quando a sua insistência só se estende ao seu deleite e já não te serve mais quando há obstáculos nestas águas. Não há nada de admirável nessa sua face retraída. Eu preciso limpar a lama dos meus pés e deixar mais uma história desfalecer, seguindo em frente curvada, carregando esse peso em minhas costas até poder caminhar de cabeça erguida novamente e admirar o meu redor. Mas e quanto a você que fica aí? Tudo se encaixa como se nada fosse, pois estar no lugar do Imperador é sentar-se acomodado em seu trono e reinar sendo servido em um mundo que molda-se a ti.

Eu vou atravessar esse espaço eventualmente e retornarei às belas flores que me cercam para encarar mais um dia da minha história finita, pois enquanto não sou ceifada, preciso semear outras histórias e deixar os narcisos apodrecerem a beira desse lago, pois Narciso acha feio o que não é espelho. E eu preciso continuar em busca do meu horizonte de esmeraldas para retornar ao meu lar.


domingo, 10 de julho de 2022

Reflexões não solicitadas - Espera

 


Parte XIV 

A vida é movimento. Às vezes parecemos estar pendurados e precisamos enxergar as coisas de outros ângulos. O nosso redor está sempre mudando de alguma forma. As estações, os ciclos das plantas, as horas, as pessoas que nos rodeiam, o clima, a lua, os ventos. Nada fica de fato parado, por mais que nos sintamos assim. Crises passam, monotonia é momentânea, pessoas vem até nós e continuam os seus eternos ciclos, conhecimento vem, novas músicas nos alegram o dia e amores também terminam, dando lugar para novas experiências. E talvez um amor pra vida toda seja possível, quando entendemos onde queremos chegar e trilhamos o caminho necessário, sem nos permitir estagnação e sensação de sufocamento ou insegurança. Bons relacionamentos são claros e acordados, não baseados em ver no que vai dar. Vai dar sempre em algum lugar, mas saber o que queremos facilita o movimento dessas uniões de vidas e planos. A união entre duas almas é querer chegar juntos em algum lugar, sempre em movimento, sempre indo além.

Hoje posso sentar-me neste local cercada de flores e observar o meu redor, reinando esse espaço que me cerca, observando com mais clareza e de forma mais amorosa o que me rodeia, o que está no meu caminho, quem caminha comigo. Sei que terei de continuar a minha caminhada, mas permito-me sentar-me neste espaço mental e refletir sobre quem eu sou. E posso estabelecer novas estratégias, curar-me, aceitar que o que ficou para trás precisa partir e continuar o meu caminho que se estende muito além desse espaço de aconchego, repleta de amor por quem estou me tornando. Tenho muitos lugares para ir, não posso mais estender as mãos para o que já não me serve mais. Caminho apreciando as belas chananas em meu caminho crescendo selvagemente por esta estrada, repousadas por borboletas amarelas. Um lembrete de que a vida se transforma, independente dos caminhos que se abrem para nós e onde agora estamos.

Agora eu só quero estar aqui, repousando, sentindo-me satisfeita pelas minhas escolhas, sabendo que meus caminhos sempre estiveram abertos e não fui eu a covarde me escondendo em muros intransponíveis, sempre aberta para resoluções, para o novo, para encruzilhadas que trouxessem resoluções, certeza de qual caminho tomar, paz interior, manifestações de novos ciclos nesta constante história, novas rotas, novos lugares. Eu estou e assim continuo, sentindo um certo aperto no peito por ver belas histórias desperdiçadas por egos inflados narcisísticos. Mas isso também passa, assim como o luto mais devastador. Eu já neguei, eu já me revoltei, já barganhei, agora ainda me deprimo pela história não vivida, mas aceito aos poucos que fiz tudo ao meu alcance. E sigo em frente, me permitindo descansar e meditar sobre o que ficou para trás.

Agora já abraço o novo e posso guiar-me mais leve por essa estrada tortuosa, sabendo que a terra do nunca se distancia de mim. Não sou mais uma criança esperando que tudo fique igual, lidando com o medo de me arriscar no mundo real, isolando-me tentando fugir das badaladas de Cronos. O tempo não para.

Já não te sinto mais e minhas mãos não se estendem procurando resgatar-te desse abismo. Agora entendo que ali é o seu lar e você conforta-se com a vida que construiu ao seu redor, mesmo com rachaduras destruindo as frágeis paredes que você levantou para se refugiar intocável. Que mantenham-se firmes enquanto você isola-se. Quod per sortem sternit fortem.

Hoje mergulho neste lago como uma sereia mesmerizante, celebrando os movimentos que a vida faz, levantando as taças repletas de sentimentos amorosos, pausando e aproveitando aquilo que me é oferecido, pois nunca saberemos o que nos espera se nos entregarmos a negação. Fique bem. Te amo, mas já não te espero mais.

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Reflexões não solicitadas - Mergulho



 Parte XIII

Mergulhei nessas águas doces que me banharam como um abraço que me suspende do meu tempo e espaço e me faz retornar deslumbrada. Mergulhei e agora sinto que pertenço a esse lugar, mas também que os meus pés não encontram o chão. Como o canto de uma sereia, me sinto atraída a este local, afogando-me nestes lábios em busca de saciedade para a minha ninfómana sede que me faz querer passar horas dentro deste local sem preocupar-me com os ponteiros que sempre estão em movimentos constantes seguindo seu rumo em busca de finitude que retorna para o mesmo ponto de encontro. Um ponto cego diante de uma infinidade de caminhos que se alastram para o meu horizonte esmeraldino.

Eu me vejo refletida nestas águas e me vejo iluminar essa noite escura de lua nova. Eu flutuo nestas águas com o toque aveludado que me carrega para o universo que se expande acima de nós.

Me entrego às taças que se celebram amorosamente, entrelaçando os braços em possíveis amores improváveis. Seriam essas águas capazes de manter esta tocha que carrego incandescente termalizando-as? Ou sou transformada em fumaça transportando-me para essas lâminas que me bloqueiam a caminhada, confusa nesta encruzilhada que apresenta-se com o peso das consequências de sentimentos vedados?

Me vejo revisitando o abismo de promessas nefastas que tranquei em uma caixinha, e a chave agora é minha para usá-la em propósitos que me satisfaçam, deixando para trás esse espaço que já não mais me nutre. Rememoro-o dos seus plácidos sussurros em nossos momentos de deleite, ou apenas deixo-o murando-se em seus trôpegos sentimentos que me apartam enquanto a sua torre se racha de dentro para fora? E por que a mim importa se você abriu os portões para outra adentrar-te o seu templo, quando ainda te vejo no topo da torre observando esse local árido indiferente?

Encontrei-me neste oásis e temo ser apenas uma miragem para sair deste deserto em que você me aprisionou. À beira deste lago ainda colho narcisos e mergulho na esperança de poder tocar os pés no chão, encontrando um ponto de equilíbrio para fincar-me em um local que me abarque e torne-me permanente. Vejo emergir dessas águas ninfeias que me enfeitam o corpo enquanto me banho. Sinto-me irradiar.

Então lembro-me do sabor azedo da sua coalhada no café da manhã. Do café com canela que você me agraciou quando ainda me olhava admirado com um novo despertar que te alentava. Das nossas gargalhadas ao alvorecer, do cheiro de tangerina em meu corpo nu e da textura macia e quente dos seus lábios que me saboreavam ávidos. Do seu rosto explodindo de prazer e gozo enquanto me preenchia de vida e afago. Dos seus dedos saborizados de alho e suor, das suas mãos passeando em meu corpo vagarosamente enquanto nossa cinesia era embalada pelo som do mar, entrelaçando-nos em um abraço que nos mesmerizava. Ludo mentis aciem.

Eu revisito esses momentos na esperança de fazer o tempo retornar e quebrar o relógio. Queria que fosse a hora do chá para sempre. Mas agora eu apenas me refresco em outras águas e não posso quebrar a ampulheta, pois as areias do tempo apenas se espalham pelo ar tornando-se caóticas e selvagens. Que Morpheus invada os teus sonhos e que torne perpétuo o que fomos e o que poderíamos ser encravados em suas memórias, te fazendo se questionar como seria se você se permitisse celebrar dessa taça dionisíaca que te ofereci. Eu te amei, eu te amo, eu te amarei, como um relógio quebrado que congelou os ponteiros na mesma hora. 11:11.  

E sou sempre revisitada por borboletas amarelas que me despertam para o amanhã esperançosa, cheio de possíveis bifurcações que me levam e me trazem, que avançam e regridem. Eu vou, mas volto, fico e parto. Como as ondas desse mar profundo. Que ele invada o teu abismo e te faça flutuar novamente, como a noite em que celebramos juntos o início dessa jornada. Eu parti desse abismo pelos campos de papoulas, levando um pedaço precioso de ti que talvez um dia te faça falta. O caminho pode ser percorrido a qualquer instante, mas o que você achará nesta caminhada já não será o mesmo, como um coelho branco correndo para um lugar inexplorado.

sábado, 2 de julho de 2022

Reflexões não solicitadas - Permanência

 


Parte XII 

Eu quero ficar aqui, mas aqui por ora me parece impermanente. Tudo o que vem, passa. É como o ponteiro de um relógio anunciando a passagem das horas. Aquele momento chega e se vai. Eu mesma estou e já não estarei. Eu quero ficar aqui me vendo refletindo-me em suas águas miragens de um possível futuro que não parece me pertencer. O que tiver de ser, será. Mas conheço essas águas e sei que eu posso me afogar nelas até sufocar. E se eu não conseguir mais emergir?

Eu incendeio em desejos e te vaporizo. Minha passagem é intensa e modificadora. Minha permanência é calma e abranda as águas. Vapor sobe, vapor se precipita, alimentando a natureza ao redor. Sou repleta de camadas como os sulcos no tronco de uma árvore, contando histórias de uma vida finita, porém plena. Sou permanente e me finco no chão, enraizando-me na minha passagem neste tempo que tudo leva, pois tudo levo. E aqui fico, se me permitir ficar. Dorsum nudum fero tui sceleris.

Queria poder te abraçar sem o peso da culpa de um desejoso carinho. Aquele abraço com o corpo inteiro, alongado, sentindo o calor que nossos corpos emanam, vibram, contagiados por um desejo visceral que nos conecta a algo selvagem e ancestral. Eu te sinto como a terra que piso os meus pés, aterrando-me. Uma conexão mais antiga que o meu próprio tempo. Conexões que o tempo não leva. Conexões que poderiam ser permanentes se nosso tempo mundano não nos confundisse as histórias. E se eu fosse a sua história? Desperdiçaríamos o nosso tempo com outros abraços? Ou os outros abraços nos contam que há outras histórias e aqui foi só um encontro acidental? O que posso fazer é caminhar enquanto encaro essa bela visão de possibilidades que me parecem errôneas querer. Será que retornarei a esse lugar? Ou serei Tétis, destinada a outro caminho? No momento colho narcisos na beira desse lago, encantando-me com a beleza desse local que me acolhe, mas me torna a mente fantasiosa de uma história que não tem para onde ir.

O que colher nesta caminhada que se alonga? Estarei de encontro a um alguém que me abranja ou estarei apenas caminhando solitária, apreciando a paisagem repleta de coragem, amor e só com os meus pensamentos que me perpassam? Para onde os sapatos de rubi me levam? Não posso mais desperdiçar os meus ciclos com histórias vãs. Caminhos de uma estrada tortuosa que se conecta com desvios que se colidem deixando rachaduras, me tornando desconfiada. Quais certezas tenho aqui? E se há dúvidas, que respostas deveria buscar? Ou deveria silenciar-me, respirar fundo e apenas ir-me para longe antes de transformar esta bela paisagem numa furiosa tempestade que destrói o seu entorno? Terei a minha cabeça cortada se insistir?

Estou exausta e sinto que os anos me perpassam e me torno envelhecida nesta estrada que se estende. Eu queria poder mergulhar nessas águas e fincar o meu lar aqui, e isso me torna tão desejosa de encher essa grande taça e banhar-me alegremente enquanto entoo as minhas doces notas ao ar. E o que isso me torna quando sei que deveria ir, mas quero ficar? Já não posso apostar em uma história que não é mais minha.

Ainda assim espero que você transborde e que as suas águas venham até o meu encontro, abarcando-me em sua tranquilidade, levando-me para o outro lado do lago, atravessando mais rapidamente esse caminho para onde preciso ir. Sem culpa, sem medo, sem desilusões. Que seja real o que desejo. Mas talvez eu apenas precise virar as costas e partir ao encontro de outro lugar. Você ainda pode me encontrar aqui, se assim o quiser. Mas logo me vou e talvez eu vire apenas uma miragem longínqua no horizonte que se apresenta no meu caminho.


quinta-feira, 30 de junho de 2022

Reflexões não solicitadas - Lago

 

Parte XI

Hoje fui visitada pela fria face do passado, mostrando-me padrões de comportamentos que preciso quebrar. Quebram-se os ciclos, a estrada segue sem obstáculos que me atrasem. Me sinto cansada, carregando o fardo de escolhas perigosas que se apresentam como um fogaréu de possibilidades. Não posso ter tudo o que eu quero. Deixo ir. Preciso me priorizar e me agarrar aos meus ideais quando vejo as flores murchando em meu caminho. Hoje nada me pareceu belo, mas uma dor me atingiu a boca do estômago transformando-se em mil borboletas cortantes que me machucaram. Nem sempre o dia alegra-se nas pequenas coisas. Não quando a desordem dos pensamentos se pesa em mim.

Preciso apenas partir, assim como Daphne, enraizando-me em outros espaços, protegendo-me do pavor desse amor que permanece tortuosa e errônea. Status malus vana salus semper dissolubilis. Me sinto estagnada em uma areia movediça me engolindo até me fazer perder os sentidos e sufocar. Preciso de calma para emergir e me retirar deste espaço. Sozinha. Mais uma vez. 

Hoje senti o meu passado me jogar maçãs podres, me cobrindo de contusões. Estou exausta e machucada. Nem sempre é sobre você. Hoje sou eu, perdida em pensamentos vãos que me assolam enquanto tento entender a roda da fortuna que gira e me tece a vida, ontem no topo, hoje em baixo.

Eu mereço mais do que isso. Mereço um caminho livre, sem perpassar por confusas miragens de futuros impróprios, como 7 taças que me apresentam opções ilusórias. Eu não posso mergulhar nesse lago que se encontra no horizonte. A minha sede é grande, mas sei que me engasgarei no primeiro gole e precisarei me resgatar de novo. A sede é grande, mas outras taças se apresentarão. 10 taças numa bela casa amarela murada e com flores vermelhas em seu pequeno jardim. Um lugar que me acolha com todas as luzes e sombras que eu sou. Um lar sólido e duradouro. Mas então porque o meu corpo se arde e me faz querer mergulhar nessa água suja? Não vejo a profundidade. Me adoece só de pensar em tocá-la, e ainda assim eu quero me afundar nela.

Preciso seguir em frente na minha jornada que se apresenta. Eu sou a minha melhor companhia, pois sei dos meus sonhos e erros, dos meus limites e acertos. Caminho em frente calçando esses preciosos sapatos de rubi que me levam para caminhos de acertos, para o meu lar. Sábios companheiros de viagem. Se eu os retiro, os perco. Me perco. Prefiro perder-te, pois até pouco era inexistência. Já não te darei mais acesso ao meu país das maravilhas, pois serás como o rei de copas invertido, desequilibrado. Você não pode me ter quando quer, como quer. Neste jogo eu dou as cartas e preciso colocá-las na mesa. Eu escolho que o meu fogo por ora se prenda, apesar de ouvir o teu chamado distorcendo-me as ideias. Dessa água não posso beber. Me recuso. Me escolho. Tchau obscuro espaço, talvez um dia eu retorne e estejas cristalino e, dessa forma, possa mergulhar em ti, com o meu canto hipnotizante encantando-te por completo.


terça-feira, 28 de junho de 2022

Reflexões não solicitadas - O tempo

 


Parte X 

O tempo me perpassa com a leveza do bater de asas de uma borboleta, voando aleatoriamente pelos céus e repousando-se em meus dedos, para logo partir. Não se pode ver e não se pode tocar o tempo para controlá-lo, não tem como prever seus efeitos caóticos. Ele apenas vai, independente dos nossos desejos e do que planejamos. E sem controle, pessoas também se vão e pessoas vêm. Que tenham uma boa estadia em minha vida e que quando partirem, que seja com boas lembranças e mais conhecimento de mundo. Que se tornem mais sábias e se abram para novos ciclos, mas levem com elas um pedaço de mim que lhes acrescentem algo. E deixem um pedaço delas em mim que me transforme, me adicionando novas camadas de um complexo eu, ainda em construção. Hac in hora sine mora.

Vejo da minha janela a sutil mudança das estações, um tempo tão familiar e corriqueiro que oculta a face dos movimentos do universo. O céu nunca é o mesmo e as suas movimentações tornam esse dia de inverno diferente do anterior e do que virá. Quem eu serei lá na frente? E quando eu me for, a lua estará nova como a dessa noite encoberta de nuvens? Ou cheia de sentimentos e ressentimentos por coisas não vividas?

A estrada se estende longamente, mas uma hora termina. Nem sempre ela é de tijolos amarelos. Mas seguimos em frente em busca do nosso lar. Esse lar, algum lar, que talvez não saibamos qual é, mas uma hora chegaremos e nos sentiremos acolhidos. Será que o fim terá algum propósito? O que teremos semeado pelo caminho? O que deixaremos pra trás? O que levaremos conosco?

Já se pegou pensando em como tudo teria sido diferente com apenas um sim? Ou com um não antes de tudo o que se passou? Como estaríamos hoje? Eu sinto que o sim e o não me tiraram de um lugar comum e agora percebo que tudo deveria ter sido como foi. Maktub.  Eu me sinto tão agigantada e te vejo lá do alto, se apequenando em silêncio e mágoas. Esse lugar já não me serve mais. Quero partir em paz, pois me sinto como a lagarta azul transformada em borboleta, voando aleatoriamente pelos céus e pousando em seus dedos, para logo partir. E quem é você?

O tempo tem esse enorme poder de fazer as engrenagens dessa grande roda girar. O que vai, vem. O que desce, sobe. O que inicia, termina. Não temos controle, mas precisamos de paciência para compreendermos esse processo que nos devora, não importa o que façamos. Ver-te ficar para trás, murando-se em seu abismo profundo, me trouxe a certeza de que consigo superar a sua ausência, pois o tempo cura as feridas e muda perspectivas. As chananas desaparecem e reaparecem, embelezando o meu caminho. Os girassóis murcham e renascem. Os pássaros fazem seus ninhos em meu telhado. Posso acompanhar esse ciclo, vendo os passarinhos aprendendo a voar enquanto entoam seus cantos ao amanhecer. E logo se vão e outros virão. E a vida não para, mas nós uma hora nos vamos também. Um dia Caronte vem cobrar o seu preço. Você está feliz com o que tem para quitar a sua dívida terrestre? 


segunda-feira, 27 de junho de 2022

Reflexões não solicitadas - Estrutura

 


Parte IX

Temos uma tendência na vida de não abraçarmos o novo. Uma certa passividade acolhedora que não nos permite caminhar nessa estrada que se apresenta. Isso nos limita tanto. A vida tem muito mais para nos entregar do que imaginamos e ficamos sempre presos àquilo que nos é familiar. Não é você apenas, mas sou eu também. Essa mudança precisa vir primeiro internamente. Como sair das experiências que nos afundam? Os traumas, os problemas, os medos, os contratempos, as opiniões cristalizadas, as autossabotagens, pensamentos que nos devoram? O que fazer com tudo o que vivemos? Às vezes as nossas bagagens pesam tanto que ficamos paralisados, com medo de nos abrir e deixar para trás o que não nos serve mais, ficamos sem espaço para o que ainda está por vir.

O tempo é relativo. Os dias se repetem e se auto devoram, exceto quando algum acontecimento nos tira um dessa rotina, uma pessoa, algo bom, algo ruim, algo. O tempo é lento e rápido, dependendo da perspectiva em que nos perpassa. E o seu ritmo é descompassado em cada um. Quando nos damos conta, nossa juventude já ficou para trás e o que construímos na nossa vida? Quais os nossos legados? Por onde estão as nossas raízes? Quais são as nossas verdades? Que sonhos saíram dos nossos rascunhos e pudemos vivê-los? Quais são os nossos sonhos?

O país da maravilha é confuso e estranho, mas nos faz ver o mundo por uma outra perspectiva. Quem somos nós? Às vezes somos gigantes, às vezes minúsculos. Nós somos tantos para todos e tantos em nós mesmos, mas somos únicos no universo que está acima de nós e dentro, se expandindo. Uma hora temos de sair da toca do coelho e adentrar o outro lado do espelho. Encarar o nosso reflexo e ver o mundo ao contrário, encarar as nossas sombras, se aprofundar no que se esconde do outro lado de nós que quase não acessamos. Nos curar das sombras encovadas em nossas mentes.

Precisamos nos permitir, abraçar o novo, testar novas águas, mas precisamos de cautela, tempo para maturar, mergulhar os pés e sentir a temperatura da água, pisar aos poucos para saber a profundidade, e só assim mergulharmos por completo nesse mar que guarda segredos que nos abrem para outros mundos mentais. Não há pressa, necessita-se temperança, mas há a necessidade de irmos além e perceber se aquele lugar nos pertence, se nos acolhe.

A magnificência da vida é que sempre podemos voltar ao nosso lar, nos retrairmos e tentarmos de novo. Sempre há lugar para renovação, para cura. Mas a vida não para. E se ficarmos parados esperando que algo chegue até nós, enclausurados em uma torre aguardando algum resgate, esse resgate não vem. A torre será derrubada pelas mãos divinas do nosso destino e reconstruir-nos-emos é um processo longo e cansativo, sempre haverão rachaduras e sequelas. Sors immanis et inanis.

Precisamos estar mais atentos ao sinal. Este é o seu sinal. Caminhe até o jardim e sente-se no gramado entre as folhas e flores, feche os olhos e sinta o seu redor. Respire e ouça os sons que te rodeiam, a gargalhada das crianças, o som dos carros, dos pássaros, do vento, das conversas, do seu corpo. Sinta o cheiro da cidade, da maresia, da grama. Sinta o sol queimando a sua pele e as plantas te tocando, os insetos pousando em sua pele, a brisa do mar que te refresca. Sinta-se, perceba-se, converse contigo, veja o que o seu olho interno te mostra, quais imagens que te vem à mente, aproveite o silêncio, ele diz muito. Em seguida retorne aos seus afazeres, mas anote os seus insights. Se entenda, conecte-se contigo. Não com a frieza de uma mente racional, mas dentro daquilo que a sua intuição te diz. Construa novos lugares internos e externos. Permita-se! Você tem o seu mundo em suas mãos e ele se estende para aquilo que você quer, o que você atrai, o que você busca. Seja feliz e que a sua caminhada te leve a lugares abundantes. Te desejo todo o amor do mundo. Saia desse abismo em que você se recolheu e construa, semeie, colha, se espalhe como pólen pelo ar, enraíze-se na sua caminhada e dê frutos. Cresça e fortaleça as suas estruturas. Eu te quero muito bem. Te quero sempre. Se cuida.