É cruel essa espera, desanima. Não entendo esse mundo em que se deve jogar com o outro, fingir que não é o que é. Seguir conselhos pra se normalizar. O bom é explodir. E esperar para algo que se quer aconteça, fingir que não depende só de si, isso me desanima. Sei que muitos esperam, gostam da espera, gostam de jogar com o olhar do outro e sentir-se desejada a distância. Não suporto. Eu acabo partindo. Me desgasto. As vezes a resposta da espera alivia mais a alma do que a espera em si. Seguimos em frente. Já esperamos tanto com a vida, a idade passar para estarmos maduros, espera-se, espera-se. Porém sentamos em frente a telas rápidas e ansiamos. É complicado esperar que a vida venha, entediados, aguardando do outro algum sinal, aguardando que o outro venha, quando já estamos aqui, preparados.
E então que venha outro dia, o mundo nos enche de amor e o desperdiçamos, esperamos o perfeito, o perfeito não vem. Esperamos o momento perfeito, a música perfeita, o cheiro perfeito, as horas perfeitas, o completo, a naturalidade, as feridas cicatrizarem. Nada vem. E então partimos e nem percebemos o quanto deixamos de viver com essa espera. O tempo não para enquanto esperamos, ele escorre de nossas horas e torna toda a espera esquecimento. Viramos meras lembranças rápidas de uma época que desejamos por algo que nunca aconteceu, porque o tempo toma todas as direções quando não nos direcionamos por ele.
E então escutamos que não devemos desejar, esperar, apenas viver, sem aguardar nada do próximo. E nos achamos tolos, porque na espera o outro decide por nós. Decide que esperamos tanto a toa. E confusos, não sabemos se esperamos mais um pouco ou vamos embora. Dizem que por querermos demais, nos decepcionamos. Devemos apenas aproveitar o momento. Vamos saborear com uma pitada de caos.
Éramos forjadores de olhares, Nos tocávamos pela distância Que o espaço nos ditava, Não havia laços, não havia palavras, Apenas o desejo de estarmos. Éramos imitadores dos amantes Procurando sentidos na pele, Tínhamos os rostos cobertos De falsas vontades errantes. E então, já não mais somos, E eu permaneço buscando no tempo sentidos, Para ter no efêmero os seus olhos, Que já me olham estranhos. Então não te quero mais me procurando, Tire os seus olhos de mim Que em mim já não mais basta Olhares para me diminuir. O tempo cura e permanece A memória de promessas vazias, Entreguei-me para me encontrar perdida. Nunca houve nada aí, Não há mais nada aqui.
Há quem diga que está tudo reservado. A vida segue de uma forma óbvia, ainda que não aconteça da mesma forma para todos. Está tudo reservado. O amor, o ódio, a esperança, a morte, o próximo dia, casamento, filhos, trabalho, formatura, etc. Entretanto tudo que está reservado um diase revela. E aí, como proceder?
As respostas parecem óbvias, e talvez sejam, para a grande maioria. Mas então pra transformar em pó tudo o que é conquistado, basta algumas palavras que soam erradas, algumas ações que parecem imperdoáveis, basta um certo julgamento. Basta viver tentando ser único. A singularidade é a maior arma contra o indivíduo. Espera-se sempre o mesmo de todos, e todos é um conceito massivo.
E então eis que o que há de mais certo chega. Morremos e as marcas que deixamos viram pó. Somos diferentes. Somos iguais. Viramos pó. E o mundo que nos esquecerá, nos marca. Sofremos com ele e ele nos arranca todos os nossos suspiros inúteis para misturar ao ar e desaparecer.
Hoje é uma noite quente de inverno. Não há uma nota de humidade no ar e os pensamentos costumam aflorar em noites quentes de solidão. E eis o maior medo humano: Solidão.
Certa vez ouvi dizer que o homem passa a vida inteira procurando o amor e quando finalmente alguém oferece, o homem estremece. E dizem que é um mundo estranho. Está tudo ao nosso alcance para afastamos das nossas mãos. Está tudo ali, reservado. Mas e aí? O que se deve fazer quando tudo o que buscamos na nossa vida nos encara? A encaramos de volta? O conceito de felicidade é igual para todos? Todos nascemos para amar? Todos tememos a solidão? A vida é assim tão igual para todos?
Sim. É um mundo estranho e somos todos iguais diante dele, racionais e previsíveis. Talvez tudo seja fácil demais e complicamos dentro dessas longas reflexões sobre a vida. Talvez seja complicada demais nessa simplificação. Queremos ter o que nos oferecem e aceitamos o caminho mais fácil. Vivemos a custa de imagens e esquecemos que as pessoas que nos rodeiam não deveriam ser definidas com cor, gênero, opção sexual, idade, beleza, condição financeira. Generalizamos e nos esquecemos da própria humanidade. Me fale em ironia e eu apontarei para o mundo.
E então continua uma noite quente e aguardo alguém enxergar acima dos seus pré-conceitos e perceber que aqui jaz um ser humano. Imperfeito de todas as formas, como todos os outros. Perfeito para a sociedade que abraça a sua improdutividade e que bagunça com a sua cabeça para que consuma essas idéias pré-definidas de tudo o que nos rodeia. Tola de todas as formas, buscando teorias de amor inúteis e afirmações estúpidas de liberdade. Procurando não abrir a caixa de Pandora e liberar aquilo que acabaria com a esperança. Mas tudo se agarra ao óbvio e nasce um novo dia.
Criado na aula de criação literário em que o tema era "pescar" 3 palavras de um livro para fazerem parte da produção. As palavras foram 'jardim', 'tempo' e 'rainha'. Adivinhem qual era o livro?
Adentrei-me no jardim do tempo. Buscava retornar os ponteiros da vida e despontei-me com a solidão da eternidade.
As rosas enrugavam-se, despetaladas em terra fértil para retornar as rosas, para retornar a história, para retornar às pétalas, para retornar ao pó.
E do pó brotavam homens, carregado do sopro divino. Os seus rostos eram lisos, até o cair da noite. Corriam contra o tempo para mergulhar os seus corpos em lagos e congelarem-se. Os corpos intactos, a vida perdida.
As mulheres eram rainhas das horas. Controlavam o tempo a seus desfavores. Plastificavam as rosas. Corroíam as suas imagens para projetarem em espelhos as faces de suas juventudes efêmeras.
Até virarem pó, e do pó cair em terra pra brotarem em rosas, em homens, em histórias, nas pétalas, no pó.