Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. O homem era dono do mundo terrestre, mas não o conhecia. Não tinha o fogo dos Deuses. Era incompleto. Então foi presenteado com o conhecimento da carne e afastado do conhecimento da alma. Assim veio Eva e com Eva veio a maçã, que liberou no mundo todas as doenças, as mortes, as crueldades que o mundo passou a conhecer.
O castigo dos Deuses aos homens não foi a sabedoria, mas o desejo de tê-la. O homem não amaldiçoou a terra, pois a terra já nasceu amaldiçoada. O homem amaldiçoou a mente por tomar conhecimento das coisas ruins do mundo. Pandora não entregou ao homem o que destruiria o mundo, pois o mundo já estava fadado à destruição. Pandora entregou ao homem o conhecimento disto. Todas as árvores de todos os mundos contêm os conhecimentos do mundo médio, do mundo superior e do mundo inferior. Mas ao conhecê-los os homens saem do seu estado de ignorância para um estado de desespero, pois sabem que todos estão vivendo em estado de ignorância e que sofrem por conhecerem coisas que não entendem. A sabedoria está ao alcance de todos, porém o homem a utiliza para corroer as suas almas com palavras distorcidas.
Não há conhecimento sem sacrifícios. Assim como Odin perdeu o seu olho para comer de Yggdrasil o conhecimento da vida e da morte, o homem está sempre se sacrificando, como forma de alcançar a elevação da alma. Mas o sacrifício existe porque há conformismo. Assim como Jesus avisa a um discípulo que ele deve deixar para trás todos os seus bens materiais, todos os seus apegos, e o discípulo não consegue, a sabedoria pede para que o homem deixe para trás todos os seus egos, todo o seu conforto com uma visão pré-concebida de mundo, e o homem não consegue. A sabedoria é isso, uma bênção e uma maldição que atormenta o homem desde o seu nascimento, quando ele é exposto a informações deste mundo tridimensional e percebe que existem regras e que existe a quebra das regras, até a sua morte, quando o homem olha para o passado e percebe que falhou em sua missão de alcançar a iluminação. Mas ainda falta ao homem comer da árvore da sabedoria, para assim entender que a sua alma é imortal e que o seu retorno é eterno.
As suas mãos acariciando as minhas, como dois corpos se descobrindo. procurando, sentindo, explorando... Eu explodo por dentro, reviro os olhos, grito em silencio, Suspiro. Suas mãos nas minhas, Sua pele, sua essência, Você em mim. Eu sinto... sinto e não sei dizer o que sinto, E digo pra mim que é isso. É você, somos nós, Queimando. A sua mão, a minha mão Entrelaçadas, sem pudor, Sem palavras, explodindo.
O sol secou o vertical das chuvas Nos teus olhos trovejando o céu, Observando o quebrar das ondas Que beijam a areia em azulado véu.
São fortes as ondas que quebram as pedras E em mil grãos se espalha a vida, Grãos que sujam essa pequena alma Moldada pela mão divina.
Mas teus olhos são vórtices traiçoeiros, Olhar frio que sopra desesperança, Em flor sangrando numa face sorridente Crava-se espinhos, mata-se a criança.
Estou presa a minha alma atormentada, essa alma eterna, essa alma velha, nesse corpo morto. Tenho que me encarar todas as madrugadas, solitária, cansada, faminta. É satisfatório me alimentar do seu sangue, estranho. Eu também costumava ser assim, amedrontada. Mas veja bem, a morte é a maior liberdade que podemos alcançar. Esqueça essa baboseira de juventude eterna! Vê os meus olhos? Estão velhos, estão mortos. Cansei.
Foi fácil te caçar, presa. Vocês humanos são tão cheios de luxúria, tão cheios de curiosidade. Nós estamos sempre famintos. Apenas um suspiro, um pouco de carne a mostra, um jeito sedutor de olhar, de dançar. Pronto. Você é meu. Mas não se engane, não passa de combustível, e vai permanecer dentro de mim até a próxima fome. Tão frágil essa vida humana. Efêmera.
E eu adoro a cor do seu sangue, esse vermelho, esse vermelho quente, esse vermelho quente e saboroso. Adoro lambe-lo do seu pescoço, te ouvir sussurrar de medo, te ouvir dar o último suspiro, e ainda assim, enquanto morre, te ver entrar em êxtase, ver você gozar. Acho tão patético, eu rio da sua cara. Como é fácil dar prazer a vocês, até mesmo no momento mais aterrorizador. Mas é isso, querido. Eu te faço gozar, você me alimenta. Boa troca não?
Não vou negar, adoro lamber esse gozo das suas cochas, logo após acabar com a sua vida. Ele permanece quente, dá ao sangue um gosto especial. É talvez o mais próximo que eu me aproximo da vida. A sua semente, a sua herança em meus lábios, perdida. É saborosamente irônico. Por isso prefiro vocês às mulheres, com as suas lubrificações, as suas vaginas frenéticas. Mas a forma como elas gozam! Como adoro ver as mulheres se contorcendo enquanto morrem. Por isso vou direto ao ponto, mordo o clitóris. E elas gritam de dor, de prazer. Adoro! Mas nada se compara a vocês, cavalheiros. Exceto quando a mulher está amamentando. Isso desperta em mim o lado mais humano. O leite maternal. Isso me faz chorar todas as vezes. É nesse momento que eu gozo. Saber que estou tirando pra sempre a mãe dos infelizes, o colo, a comida, o conforto. Eu juro, isso é tão bom! As vezes eu me alimento das crianças, é interessante. Sangue virgem. Mas é das suas mães que o verdadeiro prazer vem. Do seu leite. É esplendido.
Não sei te dizer se o que eu faço com você é uma maldição ou uma benção. Você verá o mundo pela última vez, e ele será os meus olhos, redondos, vazios, azulados, assim como o seu planeta. Aterrorizador não? Não adianta se desesperar, não adianta me bater, a sua força é nada diante da minha. Eu estou aqui há muito tempo e não há nada que você possa fazer para adiar o seu fim. É aqui, é agora e é comigo. Aurevoir.